"sua realidade segura por um fiapo de cabelo"

Trecho do conto: A Cidade das almas adormecidas

Por meio deste conto podemos analisar e compreender em que modelo de sociedade em que vivemos e os valores que reproduzimos ao logo das décadas e séculos.

Vários autores. Organização de Antonio Arnoni Prado, Francisco Foot Hardman e Claudia Feierabent Baeta Leal. Editora Martins Fontes, 344 páginas.

A Cidade das almas adormecidas – FELIX LÁZARO

Só a imaginação humana, em sua louca carreira ascendente às regiões do abstrato, pode colocar a Eros na abrupta montanha em que se achava.

Sobre a base de sua cúspide se estendia, como alguma coisa enigmática e inescrutável, a Cidade das Almas Adormecidas, onde moravam os “homens”.

E assim, em perpétua intangibilidade, viveu Eros por espaço de muitos séculos à margem dos que o haviam criado.

Mas chegou o dia em que o deus do Amor se transformou de divino em humano, e disse a seu coração:
– Estou cansado de minha solidão e destas alturas; quero descer até os homens e saber de que maneira vivem. Já é hora – seguiu dizendo – de que mitologia divina criada pelos gregos conheça algo que seja relativo ao mito humano universalizado.

E Eros, com passos firmes e longos, foi descendo da montanha até chegar ante as portas da grande Cidade das Almas Adormecidas. Sobre o pórtico havia uma inscrição, em que se lia: “Europa, Ásia, África, América e Oceania.”
– Alfa! – gritou Eros, e as portas se entreabriram.
O tempo (um ancião de longas barbas prateadas) fez a sua aparição naquele momento e perguntou-lhe:
– Que buscais entre os que dormem?
– Busco aos homens. Que me dizeis deles?
– E que poderia dizer-vos? Entrai e podereis apreciar como vivem, já que a isso chamam viver.

O Tempo abriu as portas, par a par, e Eros em companhia do ancião pôde penetrar no interior da Cidade das Almas Adormecidas.

Um odor húmido, penetrante, semelhante a infinidade de gerações reduzidas a pó, se percebia por todas as ruas e praças.

Sobre a base de um magnífico mausoléu, que servia de pedestal à figura de um herói morto em holocausto à pátria, jazia cravado um enorme ataúde.
– O que contém esta caixa? – perguntou Eros ao Tempo.
– Os restos das civilizações passadas- respondeu aquele.
– Das civilizações passadas?
– Sim, isto é, dos homens que, segundo eles trouxeram as primeiras luzes à Humanidade.
– Falaste de luzes resplendores*?
– Sim.
– Não compreendo. Minha vista é muito aguda e, não obstante, emrredor, só vejo luzes extintas. Porém, vejamos – insistiu de novo Eros. – Quem dirigiu o Destino dos povos na Antiguidade?
– Sacerdotes, reis e imperadores. Que outros personagens podem fazê-lo? Eles legaram às gerações futuras páginas brilhantes para a História, nas quais as grandes conquistas de povos e continentes inteiros sucediam-se umas às outras com prodigiosa rapidez. A Antiguidade – seguiu dizendo o Tempo – foi pródiga em heróis. As condecorações choviam sobre o peito dos reis e imperadores como uma coisa prodigiosa.
Calou-se o Tempo.

Eros, entretanto, reflexionava sobre o que ouvia. E, finalmente, inclinou-se sobre o ataúde e, levantando a tampa, pôs-se a examinar o interior.

Ossos, túnicas e metais preciosos se confundiam em uma massa compacta; porém, o que mais chamou poderosamente a atenção de Eros foi um montão de coroas reais, cetros, cruzes oficiais e outras muitas condecorações de Estado que havia sobre um ângulo de caixa.

E, à vista de tantos ornamentos, pediu ao Tempo que o conduzisse a outros lugares menos silenciosos, porque alí começava a aborrecer-se.

Acedeu o tempo; porém, no momento em que se dispunham a abandonar o lugar, um furacão sacudiu violentamente o ataúde, despejando-o.

E produziu uma coisa assombrosa, imprevista.

Do interior daquele montão enorme de despojos, saíam, em estrepitosa sinfonia, gritos agudos, queixas, risadas de loucos.

Por debaixo dos escudos, coroas e demais ornamentos governamentais, corria um caudaloso rio de sangue humano, e, por entre o sussuro das águas rubras, percebiam-se mães desesperadas, um rumor surdo que era todo um poema de dor humana.
– Que significa tudo isso? – perguntou Eros aterrorizado.
– Significa o fruto, o resultado de todas as conquistas, de todas as vitórias do homem sobre si mesmo. – respondeu o Tempo.
E Eros disse ao próprio coração:
– Onde os homens só vêem louros e vitórias, unicamente, crimes.
– Feche esse ataúde – continuou – que só ossos e horrores contém, e deixemos os nossos antepassados dormindo eternamente, já que nos legaram, somente, obras defeituosas e monstruosos crimes. Sigamos ao lugar onde existem os homens vivos, se é que ainda existem nesta silenciosa cidade.
Passados instantes, achavam-se ambos ante enorme edifício, onde uma multidão informe movia-se ao compasso de um ritmo estranho.

Máquinas, muitas máquinas; buzinadas, fábricas, ateliês, homens, coisas: tudo se confundia naquele local em contínuo tropel.

E o Tempo, dirigindo-se a Eros, disse-lhe:
– Eis aqui os que vivem, os homens atuáis. Vivem em sociedades dirigidas por um Estado.

Vários autores. PRADO, Antonio Arnoni (org.); HARDMAN, Francisco Foot (org.); LEAL, Claudia Feierabent Baeta (org.). Contos anarquistas. Editora Martins Fontes.

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